O cotidiano do professor está cada vez mais propenso ao desespero…
Não citarei os milhares de problemas com relação às más condições de trabalho, ou desvalorização financeira; isto é um dos fatos que caracterizam nossa “pedagogia do cinismo” , afinal, “quando prestamos o concurso já era sabido o salário”. O que não sabíamos era que ele continuaria o mesmo, sem reajustes, por um longo tempo, ou até mesmo, por toda nossa carreira… E deve ser por isso que somos ainda chamadas de “tias”, trabalhando nas condições e salários atuais, a única coisa que alimenta nossa dedicação à prática é a amorosidade? … Mas isso faz parte da lista de um milhão de detalhes que esquecemos quando entramos em sala de aula, ou tentamos esquecer, pois o aluno muitas vezes é tão vítima do sistema educacional, quanto o próprio professor.
Adicionarei aqui, um trecho de Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar - Freire, 1997; (grifos meus):
“É impossível ensinar sem coragem de querer bem, sem a valentia dos que insistem mil vezes antes da desistência. É impossível ensinar sem a capacidade forjada, inventada, bem cuidada de amar. (…) É preciso ousar para ficar ou permanecer ensinando por um longo tempo nas condições que conhecemos, maus pagos, desrespeitados, resistindo ao risco de cair vendidos ao cinismo. É preciso ousar, aprender a ousar, para dizer não à burocratização da mente a que nos expomos diariamente. É preciso ousar para continuar quando as vezes se pode deixar fazê-la, com vantagens materiais.
Nada disso, porém, converte a tarefa de ensinar nem que fazer de seres pacientes, dóceis, acomodados, porque portadores de missão tão exemplar que não pode se conciliar com atos de rebeldia, de protesto, como greve por, exemplo. A tarefa de ensinar é uma tarefa profissional que, no entanto, exige amorosidade, criatividade, competência científica, mas recusa estreiteza cientificista, que exige a capacidade de brigar pela liberdade sem a qual a própria tarefa fornece.”
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