segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Profissão: professor

 

      Finalmente chegou janeiro… Finalmente podemos arrumar os armários, visitar parentes e amigos; e com sorte, até um bronzeado. Quem sabe?

     Boas e merecidas férias !!!

     Mas afinal, por que precisamos de recesso e férias? Se outros trabalhadores de diferentes segmentos se contentam com apenas 30 dias. Por que o professor necessita de férias e recesso? Temos 45 dias, em casa, sem contar os feriados prolongados !

     Certa vez, estava andando pelos corredores da escola quando ouvi duas mulheres conversando :

- Farei Pedagogia! Conversei com meu marido e essa é a melhor escolha, pois temos filhos pequenos. Hoje, ainda estão no período da creche; GRAÇAS A DEUS ! Mas em pouco tempo ficarão na escola APENAS 4 horas e o que vou fazer ? – Disse uma das mulheres a outra que atentamente ouvia.

- Nossa menina, não tinha pensado nisso… Sabe que não é má ideia? A gente se forma e depois trabalha 4 horas por dia. Tem feriado prolongado, recesso, férias e ainda podemos conciliar o horário da escola de nossos filhos com nosso serviço. Noooooooooossaaaaa… É isso mesmo ! Farei pedagogia com você ! – Respondeu a segunda mulher, eufórica.

     E assim teremos mais duas pedagogas formadas disputando concurso e rezando para terem feriados prolongados, férias e recesso! Total de 45 dias garantidos de folga, sem contar os feriados prolongados e o melhor: trabalharão apenas 4 horas por dia.

     Antigamente acreditava que ser professora era muito mais que isso.

     Na verdade, ainda hoje, depois de 12 anos de experiência docente, tenho a cada dia a certeza maior de que ser professora é muito mais que ter um diploma universitário e um título para prestar concurso público.

     Talvez, minha louca paixão pelo magistério tenha me impedido de ver que com o passar do tempo surgiram muitas colegas de trabalho extamente por buscarem uma opção viável, compátivel com às necessidades domésticas.

     Estou de férias ! Melhor não pensar em escola ! Vou arrumar os armários…

     Encontro revistas (sobre educação), cadernos (com rascunhos de resenhas, resumos e outras atividades relacionadas a educação), alguns livros cujo autores são conhecidos ( Rosita Edler Carvalho, Moacir Gadotti, Celso Antunes, João Pacheco, Rubem Alves…) ; muitas folhas de xerox (todos com texto sobre educação: “entre fraldas e livros”, “mordidas: fase ruim”, “planejamento e suas faces”, “escola da ponte: defender a escola pública”, etc)…

     Me senti na escola, me senti no meio de uma reunião pedagógica ! Arrumei os armários? Não ! Fui ler … Muitos destes textos li apenas fragmentos, destaquei alguns que serviram de citação em alguns de meus TCCs, monografias, fichários digitais … entre outras tarefas pedagógicas.

     Lendo um dos textos, vi o link de uma reportagem com Rubem Alves. Não resisti : liguei o PC e assisti.

     Uma de suas falas:

“(…) a solução para os problemas da educação está na inteligência dos professores (…)”

     Ufa… INTELIGÊNCIA DOS PROFESSORES !!!!!

     GRAÇAS A DEUS, NÃO DISSE : PEDAGOGOS.

     Não tenho nada contra quem faz pedagogia, sou pedagoga também. O que me deixa preocupada é a forma que, algumas pessoas, escolhem nossa profissão. Será que a alma da educação está nos horários flexíveis e nesses 45 dias em casa? Um médico deve escolher a profissão porque fica lindo de branco? Sou uma pessoa muito romântica… Serei cardiologista: farei bem ao coração das pessoas… Quanta bobagem…

    A cada coisa que lia, mais vontade de escrever eu tinha. Um dos textos me convidou a estar aqui sentada em frente ao computador, num dia lindo de Sol…“Fragmentos da profissão fragmentada” .  De acordo com Figueiredo, 2011:

    “O trabalho docente (bem feito) envolve muita reflexão, muito “pensar”. Mas não refletimos sobre o vazio. Portanto, para o professor pensar ele precisa : ler, observar, vivenviar experiências. Sobre esta base, nós refletimos e pensamos para quê? Para produzir. Para o professor, esta produção assume múltiplas formas: aulas, textos didáticos, artigos científicos, invenções, inovações, projetos, relatórios, palestras, conferências, atendimento à população, etc. (…) E se me permitem um momento de indignação, diria que discursar e dizer palavras de ordem é muito fácil. Difícil e necessário é ter uma prática docente tendo em vista o interesse coletivo. Tomar atitudes radicais que só prejudicam os mais necesitados e não nos prejudicam, não é uma atitude corajosa.”

     Me preocupo com o aluno da creche (0 a 3 anos) que não tem 45 dias em casa. Deve agradecer pelos feriados prolongados !

     Esse sim! Quando estiver na fase adulta. certamente será um professor. Afinal, não conhece outro mundo senão o da escola. Seu convívio é com a comunidade escolar. Seus primeiros passos, primeiras palavras, início da autonomia… Além das férias: uma família ! Mas não devemos nos preocupar com as crianças, certo? Temos ECA e LDB. Em qual parte destes tão conhecidos textos temos a defesa pelo descanso, em casa, da criança matriculada em creche?

      Eu estou de férias. Tenho a Constituição ao meu lado e meu direito está garantido. Contudo, meu aluno está na escola… ainda não entende muitas coisas sobre calendário, mas aposto que se entendesse estaria contando os dias para o carnaval! … Caro aluno, faça pedagogia… É a garantia dos 45 dias. Certo?

      Me preocupo… As creches viraram abrigo e donas de casa que precisam trabalhar, tornam-se pedagogas…

     Que essas se apaixonem como eu e tantas outras colegas… Que em seus armários textos e mais texto sejam encontrados, lidos e relidos… Que mesmo em seus 45 dias em casa, com seus horários flexíveis, encontrem momentos para serem professoras… Que ao estarem “fixas” em suas unidades escolares, entendam que esta é uma profissão com grandes desafios e a menor das recompensas são os 45 dias em casa.

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